Motive-se...

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Somente o necessário: Excessos costumam ser mais prejudiciais que as faltas

 Embora as pessoas reclamem com imensa frequência daquilo que não possuem, existe outra questão que merece toda a nossa atenção: aquilo que possuímos em excesso.

Aliás, os excessos costumam ser mais prejudiciais que as faltas, mas demoram mais para serem percebidos. As faltas nós notamos imediatamente, os excessos só quando despertam a nossa consciência.
Em geral, possuímos mais do que necessitamos para ser feliz, mas continuamos insistindo na desculpa de que não somos felizes porque nos falta alguma coisa. E de fato falta: falta assumirmos um estilo de vida mais franco, sincero e liberto.

Tudo o que temos em excesso demanda tempo e energia para ser administrado. Roupas demais, CDs demais, bagunça demais, lembranças demais (fique com as que valem a pena, pelo aprendizado ou felicidade que trouxeram), compromissos demais, pressa demais.

Todos nos beneficiaremos com a prática de determinado nível de minimalismo (sem excessos, porque isso também pode ser demais). Podemos reinventar nossa maneira de viver para viver com o necessário. Não precisa ser o mínimo necessário, pode haver algumas sobras, mas sem os exageros de costume.

Viver melhor com menos. Isso traz uma sensação de leveza e felicidade tão maravilhosa que todos devemos, ao menos, experimentar. Na melhor das hipóteses, aprendemos e adotamos um novo estilo de vida.

Quem está em processo de mudança, reconhece rápido o quanto acumulou de coisas em excesso, e aprende que pode viver tão bem, ou melhor, com muito menos!

Se vamos acampar, somos felizes apenas com uma mochila...

Liberte-se dos excessos de todo o tipo: excesso de informação (aliás, muita coisa é só ruído, nem mereceria sua atenção); excesso de produtos e serviços (consumismo é uma válvula de escape para não olharmos para nossa própria existência e para o vazio que buscamos inutilmente preencher com compras); excesso de relacionamentos (nem todos valem a pena, não é verdade?). Viva mais com menos, experimente algum nível de minimalismo. Permita-se sentir-se livre dos acúmulos e excessos.

Nada é mais gratificante que a liberdade, a sensação de que você se basta sem precisar de um arsenal de coisas, sons e cores a seu redor. Dedique-se a experimentar essa libertadora sensação. Quem sabe viver com pouco, sempre saberá viver em quaisquer situações, mas aqueles que só sabem viver com muito, nas mínimas provações e ausências sofrem e se desesperam. Esses últimos se confundiram com seus excessos... e na falta deles, não se reconhecem.

Nunca sabemos se viveremos com o que temos, com mais ou menos no dia de amanhã, mas se aprendermos a viver com o que é essencial, viveremos sempre bem.

Todo excesso é energia acumulada em local inapropriado, estagnando o fluxo da vida. Excesso de excessos corresponde à falta de si mesmo. E se o que te falta é você, nada poderá preencher esse vazio...

Escrito por por Carlos Hilsdorf

quarta-feira, 6 de junho de 2012

CONVICÇÃO



Quando um jogador erra um pênalti raramente aceitará bater um próximo durante o jogo.

A clara vantagem moral do goleiro apaga a tranquilidade do batedor. O torcedor também não ajuda, e passa a vaiar qualquer ameaça à sua alegria, proveniente de um ídolo ou não.

Sou fascinado pelo exemplo do atacante argentino Martín Palermo, o El Loco. O maior goleador da história do Boca Juniors protagonizou na seleção de seu país a proeza de desperdiçar três penalidades numa única partida. O feito memorável ocorreu contra a Colômbia, em julho de 1999, pela Copa América.

Não me espanto pelas três chances decisivas e letais de gol postas fora, que asseguraria o empate da Argentina, mas sua teimosia inabalável de permanecer tomando a bola para si na marca branca da pequena área.

- Deixa comigo, agora vai!

Sua insistência é heroica, mítica. Palermo é primo de terceiro grau de Electra, dublê de Sísifo, cover dos corvos de Prometeu. Ele não se preocupou em proteger sua trajetória vitoriosa, em conservar sua reputação imaculada, abriu a guarda à crítica, largou a zona confortável da normalidade, permitiu-se extrapolar a cota de vexames que cada um suporta por dia. Enfrentou o próprio azar, para que se tornasse maldição ou redenção.

Muitos dirão que ele perdeu a cabeça, não teve bom senso, vejo o contrário: ele assumiu que era uma noite ruim e foi até o fim, não culpou o vento, a chuteira, o gramado, o juiz, não usou atenuante, não transferiu o peso da falha a possíveis movimentos irregulares do goleiro, não procurou se isentar da responsabilidade de decidir, não se apequenou perante o primeiro tombo, confiou em seu talento e insistiu. Assim que admitiu bater a segunda cobrança, estava fadado a seguir com a terceira, a quarta, a quinta, a sexta, quantas surgissem. Não desistiria nunca. Ele levou para o lado pessoal, como deveríamos fazer sempre, ruim é quando levamos para o lado público e desistimos.

Ele chutaria de tudo o que é jeito, e talvez errasse consecutivamente, pela vida inteira.

Quem teria a mesma intrepidez? Quem bateria numa porta para ser negado sucessivas vezes? Nem o mendigo sobrevive à reincidência. No plano amoroso, só nos declaramos quando temos absoluta certeza da reciprocidade, e olhe lá! Poucos se arriscam sem absoluta confiança de uma resposta positiva. Dizer o "eu te amo" vem engasgado, confuso, rasteiro - o outro pede para repetir de propósito. Na ausência de certeza, recuamos, fingimos que nada aconteceu, escondemos os próprios sentimentos. Existe um medo de se confessar, justamente para não ser zombado, para não ser chamado de burro.

Covardia é fugir do fracasso, coragem é aceitar o fracasso. Palermo não foi palerma.

Fonte: http://carpinejar.blogspot.com.br/2011/09/conviccao.html